Cuidado com a linguagem Apelativa

   Senhoras e senhores, muito cuidado com a língua portuguesa. Pois diante do nosso diminutivo, esconde um argumento ardiloso. Eu o chamo de linguagem apelativa. Constatei isso num sábado despretensioso enquanto só queria gozar da maciez do meu sofá diante de algum seriado mequetrefe da Netflix. Tudo corria dentro da tranquilidade quando minha esposa ao ver me quieto falou:

   – Amor, vai dar uma volta com o cachorro. Ele está estressado.
– Amor, deixa que eu vou mais tarde – Retruquei.
– Amor, só uma voltinha… O bichinho… – Apelou.
Me ocorreu que uma voltinha é algo pequeno, rápido e indolor. O cachorro me olhava triste como se entendesse as palavras da minha esposa.
– Tá bom. Mas só uma voltinha!
Depois de colocar a coleira sob mordidas efusivas, desci. Pensei: já que estava ali, vou dar uma volta completa mesmo.
Passado esse episódio, voltei a relaxar. Meu telefone toca.
– Fala macho! Vai fazer o que mais tarde? – Diz meu amigo animado.
– Cara até agora não planejei nada.
– Pois bora tomar umas?
– Eu agradeço, mas quero dormir cedo. Amanhã vou correr – Tentei me esquivar.
– Rapaz é só uma cervejinha… Você volta cedinho mah.
Pensei, cervejinha tá tranquilo, é menos que uma cerveja. Como se existisse essa unidade.
– Tá, só uma cervejinha!
Avisei minha esposa quando entrei no banheiro.
– Amor, vou tomar uma cervejinha com os amigos tá? Volto cedinho, é rapidinho.
– Tá certo – Disse ela secamente.
Me espantei com a aceitação sem briga. Quando saí do banho ela estava toda arrumada se maquiando na frente do espelho. Olhei atônito para aquela cena.
– Você vai linda? Já ia te chamar.
– Pois é, como as meninas vão também, achei que eu deveria ir não acha? – Deu pra perceber o deboche no ar. Pensei em entrar na briga, mas no casamento perder é ganhar.
– Claro vida! Só me preocupo com o cachorro, o bichinho vai ficar sozinho – Vai que cola, melhor cair atirando.
– Ele já passeou e como você mesmo disse, vai ser rapidinho.

   Bom, fomos para o barzinho. Não comemos muito por conta da dieta. Foi só um baiãozinho, batatinha, espetinho e umas dez cervejinhas. Deu para chegar antes da meia noite.
Quando deitei na cama, processei que se não fosse o desgraçado do diminutivo que dá uma falsa sensação de pequeneza, eu não tinha saído de casa. As pessoas fazem isso o tempo todo. É só um minutinho, uma voltinha, um lanchinho, um dinheirinho, uma dorzinha… Então virei pra minha mulher que estava deitada ao meu lado da cama e disse:

   – Mô, vamos fazer só um amorzinho…

 

Garoto Perdido

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