Entre o Adeus e o Eterno – Uma Reflexão Sobre o Meu Tio

Menino e idoso

   Essa semana recebi uma notícia triste, meu tio e padrinho descobriu um CA avançado no pâncreas. Mas nem pense que ele tá desolado ou fazendo quimioterapia ou um tipo de corrente religiosa infalível. Ele deseja viver mais, porém assinou o termo de responsabilidade do hospital, dispensou o tratamento e foi pra casa. Aceitou o que virá e prefere ficar disposto no tempo que lhe resta. Está sorrindo e brincando embora reconheça que seu estado é muito crítico. Ele não é uma pessoa religiosa, talvez ele considere que no auge dos seus setenta e três anos o que viveu foi suficiente e que nada adianta seguir com um tratamento doloroso e degradante para que o fim seja o mesmo. Como diz um autor argentino, “todos os caminhos levam a morte, portanto perca-se”. 

   Eu fico pensando no que eu faria se soubesse que a areia da ampulheta da minha vida estivesse próxima de chegar ao fim. Será que tudo que eu fiz valeu a pena? Será que eu poderia ter feito diferente? Será que eu corro pra pedir perdão para as pessoas das quais falhei? Será que faço uma viagem em lua de mel com minha esposa ou completo projetos que eu adiei porque sempre achei que tinha tempo demais? Será que dou uma última festa ou choro por tudo que não terei a oportunidade de presenciar ou fazer? Assisto a um filme que quero ver antes de morrer, leio livros que preciso ler antes de partir, vou a todas as missas que puder para tentar garantir uma vaga no céu, brinco com meu filho até não poder mais. 

   Eu sinceramente não consigo responder essas questões, mas meu tio, ele continua trabalhando no seu negócio. Assim, normal, como se fosse mais uma segunda feira. Queria eu ter essa maturidade elevada de quem viveu e está satisfeito. “Quero viver um ano pelo menos se der” ele disse como se tivesse algum controle disso. Não sei o que passa na cabeça dele, mas na minha é que eu vou sentir muitas saudades. Sei que ainda não partiu, mas queria que ele tivesse sido mais presente nos natais em família, queria ter tido uma abertura para sermos mais próximos. Nossos encontros se resumiam a um diálogo rápido: “Bença padrinho?”, “Deus te abençoe” respondia ele prontamente quando nos esbarrávamos nos corredores do emaranhado de casas em que meus tios vivem. Não quero inverter os papéis aqui tio, mas hoje sou eu quem diz: “Deus te abençoe!”. 

 

Garoto Perdido 

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